quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Corpo-a-Corpo II

Concentra-se o tempo neste segundo
Condensado pela memória de ti
Espelhado pelo sentimento dum beijo
Perdido nesse momento de languidez fugidia

As palavras não são o bastante
Para a singularidade do que fazes crescer
Neste peito-flama rogante de ti

Os olhos desmaiam na fragilidade
Deste espaço criado
Num pedido para um pouco mais,
Lento e leve, quem sabe, docemente

Há uma ânsia, uma vontade quase voraz,
Carnívora na sua beleza de inocência perdida,
De descobrir essa curva de suave promessa

Abre o tempo em toda a sua complexidade,
Em toda a sua rede de amores imperfeitos,
Na sua natureza de água e fogo
E na volta à batalha duramente doce corpo-a-corpo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Corpo-a-Corpo

Há um medo incandescente
nesta batalha
corpo-a-corpo.
Há a incerteza no ataque
que, bailante, se desfere
sobre a palma aberta.
O olhar posto na nudeza
da pele ferida.
O peso da carne fundida a dois.
O tempo que leva esta luta
dançante numa súplica
silenciosa. O medo que
violenta
mais um momento
de doçura
nesta batalha
corpo-a-corpo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

É assim (um momento)

É a porta que não abre,
a engrenagem que não roda.
O silêncio que não grita e
O grito que te abafa.

O passo perdido, a dança
sem ritmo. A chuva que não
vem e a nuvem que não vai.

A palavra que não sai,
a vontade que dói,
o corpo que estremece
e a mão que procura

incessante

descrente

pedinte de um pouco mais
de mar, de brisa, de sonho.

O olhar perdido em viagem,
o sangue que pulsa, a vida que
corre.

É um momento parado
é um tempo assim,
assim sem nós.

É a minha saudade de ti.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Morte.

Fénix.

É assim.

É assim
e nada mais.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Leva o vento a sentença
da noite. É a promessa de algo,
de um pequeno abalo
que tropeça o lento passo da fusão
da lua com o dia.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dança Mecânica

Sinto o silêncio que corrobora
nesta dança a um. O solitário movimento
da cintura e as mãos agarradas à lâmina
do vento é o mais triste sentimento que
m’acompanha neste baile de fantasmas.
O vestido enrolado entr’as pernas
tementes, rasga o passo a passo, tapando
a música gritada na vastidão vazia.
Vagueio em valsa por entre as pedras da
noite, procurando nos sussurros do
vento-faca, as palavras com que me lancei
para este monólogo de silêncios.
Tropeça o pé. Tropeça o vestido entr’as pernas
tementes. Tropeça a dança solitária.
Caem as palavras, espalhando-se no chão
de picos, inalcançáveis. Olho para as palmas
das mãos, sujas. Vejo a cara, desfigurada
no movimento mecânico que me puxa o corpo
para esta dança de fantasmas.
Toca o sino, toca a música. É o fim.
É o começo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Queria ser
aquilo que me querias ver.
Queria ter
aquilo que não te sou.

Queria viajar pelo encantamento
que há em ti,
regressar,
fugir de ti.
Voar para ti.
Compreender um’alma solitária
no verão dos tempos.
Partir as paredes quebradiças,
o gelo do silêncio gritado,
rasgado,
no isolamento das horas.

Queria esquecer,
permanecer,
pureza corrompida
pelo ventre rasgado.

A magia dum momento esquecido,
aqui, nesta pedra que nos sustêm.
Respira-me as promessas adormecidas.

Baixinho te digo,
Não me desapareças.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Levanta o vento da passagem
do sol para a noite. É um beijo
dorido na promessa primaveril
dum sonho sem sono, dum tempo sem tempo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Lembrança I

Procura-se num olhar aquilo que não se encontra
no simples roce do dia a dia. É uma memória
perdida no sótão do teu pensamento. É uma camada
de pouco ou nada, a inquietação permanentemente aqui.
Fugir de si mesmo, correr na rua empedrada,
a chuva que te cega por uns momentos de pequena glória,
a libertação do teu corpo rasgado pelo poema triste que não se
soltou. A violência de uma palavra silenciada é a condenação
sobre uma procura constante, a dúvida que permanece.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Silêncio

Silêncio.
Vigília atenta.
Estremeço.
Dor aguda.
Soluço.
É a lágrima que fica.
É o momento perdido.
É o minuto que não passa.
É a vontade que não larga.

Silêncio.
Cai a gota.
Fico.
Cai o céu.
Noite que não chega.
Dia que não amanhece.
É a estrada que m’ atravessa.
O grito que m’ encrava.
O asfalto que m’agarra.
Parada.

A violência que fica
Numa palavra silenciada.