terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
sem falta lhe terá bem merecido
que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piadoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
seja por cego e apaixonado tido,
e aos homens, e inda aos deuses, odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
em mi mostrando todo o seu rigor,
ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
todos estes seus males são um bem,
que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís de Camões

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto

sábado, 6 de novembro de 2010

A Casa Quis Dormir

(na ironia das noites sem sono)

Nesta noite, a Casa foi para a cama mais cedo.
A tentativa desesperada de ser atacada pelo sono
Foi rapidamente desiludida. A noite quis hoje
Esfolar o timbre desperto de maneira mais ruidosa
Que antes.

Perguntava-se a Casa, enrolada nos lençóis,
(Amarelos como o sol, com risquinhas azuis
Como a noite) como podia ser que logo
Quando ela cumpriu o que devia, a Noite não
Lhe deu o sono que queria.

A pele eriçou-se-lhe, como gato assanhado
Afagado onde era proibido, no pensamento
De tal maldade. Casa que é casa tarde se deita,
Mas por respeito aos seus pobres nervos, cedo
O quer.

“Ó senhor noite, que tanto me tormentas”, disse,
“Vem, devagarinho, acompanha-me no embalo
Dos lençóis como tantas e tardiamente o fizeste.
Escuta-me o desejo, sacia-me o cansaço e perdoa-me
As gretas de chuva mal molhada”

E nem assim, com este canto lânguido de olhos laços
A noite concedeu o que a Casa tanto pedia.
Quem sabe no novo dia, as gretas de chuva mal molhada
Sequem no tempo sem tempo, mal passado.